Nova Exposição da Coleção do Museu Bordalo Pinheiro
Todo o ano
O Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, inaugurou na passada quinta-feira, dia 15 de janeiro de 2026, a sua nova Exposição de Longa Duração, que apresenta uma visão contemporânea e atual sobre a vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro.
Rafael Bordalo Pinheiro foi caricaturista, ilustrador, fez trabalhos gráficos diversos, figurinista, e também ceramista, decorador, empresário. Fazendo uso das palavras do seu grande amigo César Machado: “Artista. Em tudo e de tudo artista.”
Nascido em Lisboa, aí viveu grande parte da sua vida. Conviveu, foi amigo e colaborou com importantes escritores, jornalistas, atores, dramaturgos, encenadores. Empreendedor, dinâmico, entusiasta, foi amante do teatro e das artes visuais. Viajou e conheceu importantes cidades europeias, viveu no Rio de Janeiro, durante quatro anos, onde dirigiu três dos oito jornais humorísticos que fundou ao longo da vida. Homem do século 19, liberal, anti-monárquico, anti-clerical, socialmente comprometido, sonhou e lutou pela República. Defensor do progresso, mas também das tradições e com respeito pelo passado histórico. Apoiante do abolicionismo, contudo defensor do império colonial português. Alegre, mordaz, riu e fez rir a sociedade do seu tempo. Hoje faz-nos rir e refletir.
Esta exposição procura dar a conhecer o legado desta figura, marcante e complexa, nas diferentes áreas em que trabalhou e atuou.

A nova Exposição de Longa Duração do Museu Bordalo Pinheiro é composta por sete salas:
0. A SITUAÇÃO… PELA LENTE DE BORDALO
A segunda metade do século 19 foi marcada por grandes transformações políticas, económicas, sociais, tecnológicas e artísticas. Os desenvolvimentos da imprensa, dos transportes e das comunicações permitiram a Bordalo acompanhar os acontecimentos nacionais e internacionais.
A monarquia constitucional, a alternância de dois partidos no governo e a influência da Igreja eram para si os grandes males do país. Com um forte espírito crítico e sentido de missão, o caricaturista expunha na sua crónica humorística semanal as fragilidades do sistema e suas consequências, incitando à necessária mudança.
As tensões internacionais e as ambições expansionistas preocupavam-no, reconhecendo a importância económica e política das colónias. Movido por um exacerbado orgulho nacional, reagiu satiricamente contra os governos e as potências europeias, mas também contra os povos africanos resistentes.

1. JOGOS DE HUMOR: DO DESENHO À CERÂMICA
Bordalo explorou de forma criativa o desenho humorístico, tornando-o o seu principal meio de expressão. Com um profundo conhecimento da arte da caricatura e interesse pela produção internacional, desenvolveu uma linguagem própria. Aqui apresentam-se diversos recursos gráficos e retóricos, alguns dos quais transportou para a cerâmica.
Começando com a caricatura, vemos multiplicarem-se deformações e metamorfoses cómicas de figuras da política, cultura e religião. A dimensão simbólica de certas transformações revela metáforas visuais fortes. Também o potencial humorístico da composição da página e da cor se manifestam.
Da personagem à ação, e desta à construção da narrativa gráfica, Bordalo desvenda o seu contributo para a banda desenhada. Jogos de humor que surpreendiam constantemente os leitores e os desafiavam a participar.

2. FIGURAS E PERSONAGENS
Bordalo caricaturou as principais personalidades do seu tempo, salientando-se os políticos, mas também, os escritores e os atores, estes por especial apetência do artista e pela sua importância na vida cultural e mundana.
Criou personagens necessárias à crítica social e política, sendo exemplos maiores o Zé Povinho e a Maria da Paciência. Enquanto representante do povo português, o Zé Povinho ultrapassa o acontecimento e vai perdurar no tempo. A sua companheira Maria da Paciência define-se entre uma Lisboa coscuvilheira e a consciência da pátria, tendo uma vida curta.
O retrato físico e psicológico dos caricaturados vai-se definindo no decorrer da narrativa gráfica e que em alguns casos passou à cerâmica. Assim, as figuras não são estáticas, renovando-se face a cada situação real ou imaginada por Bordalo.

3. OS PALCOS DE LISBOA
A cidade de Lisboa é tema e palco de grande parte da crónica humorística de Bordalo. Foi aí que nasceu e viveu a maior parte da sua vida. Conhecia-a bem, por fora e por dentro, e presenciou as suas lentas, mas significativas, transformações.
A Lisboa burguesa e progressivamente cosmopolita convivia com uma Lisboa com marcas de ruralidade, marcada por desigualdades sociais. Com um olhar crítico, Bordalo revela de forma constante essas diferentes realidades. Nos seus jornais, paralelamente à critica humorística de peças de teatro e às tendências de moda, surgiam referências aos costumes e tradições populares e religiosas, à pobreza e ao crime. A sua sátira saltou dos jornais para os palcos de importantes salas de teatro, através dos figurinos que desenhou.
Para a transformação das ruas de Lisboa contribuíram os seus projetos de decoração para montras e o desenho de cartazes publicitários.

4. COMÉDIA POLITICO-BURLESCA
Podem entrar, meus senhores! Vae começar o 3º acto da grande comedia politico-burlesca!
Os jornais de Bordalo acompanhavam de perto a vida política nacional. Alguns temas são recorrentes, como os vícios do sistema e as manobras partidárias, as eleições, as alterações à legislação, a dívida e as obras públicas, entre outros.
As situações políticas ou os diferentes enredos ganham através do desenho e do texto uma feição trágico-cómica. Bordalo encontra no teatro, enquanto arte e lugar da representação, uma metáfora eficaz para descrever a ação política, com os seus atores, palcos e bastidores. Além do teatro, outras formas que com ele partilham o carácter da ilusão são simbolicamente exploradas, como os espetáculos de feira, de circo, Carnaval, festas de Santos Populares e procissões. Nesse grande espetáculo do absurdo, os atores-políticos encarnam diferentes personagens e identidades, enquanto o Zé Povinho surge a maior parte das vezes, adormecido na plateia, ou a deixar-se levar pela situação.

5. TRAGICOMÉDIA SEM LIMITES
Bordalo não excluiu da sua produção humorística quaisquer indivíduos, instituições, temas ou ideias. Entre os ingredientes de humor que usou fazem parte costumes populares, religiosos, manifestações da cultura erudita, mas também preconceitos sociais, raciais, de género e sexuais. Essas páginas provocadoras são espelho da mentalidade oitocentista na relação com o outro, mas também das formas de fazer humor. Como as vemos hoje? Continuam a provocar o riso?

6. O LÁPIS COMO ARMA
No final do século XIX assistiu-se ao aumento da contestação política e do conflito social. Paralelamente foram postas em marcha medidas de controlo e repressão no espaço público. As ruas de Lisboa e do Porto eram vigiadas em permanência pela polícia, limitando as liberdades de expressão e reunião. A imprensa, poderoso meio de formação da opinião pública, encontrava-se cada vez mais ameaçada pela censura.
Bordalo encara o seu lápis como arma de defesa e contra-ataque na luta pela liberdade e igualdade. Esse poderoso instrumento de desenho permitia-lhe expressar as suas ideias, denunciando situações e instigando ações de mudança. Com ele elogiou também grandes e pequenos feitos, figuras reconhecidas e anónimas, procurando contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.

Datas e horário
Aberta entre terça e domingo, das 10h00 às 18h00.
Encerra às segundas-feiras e nos dias 1 de janeiro, 1 de maio, 24, 25 e 31 de dezembro.